
Arte - Laury Jr. / Agência Moinhos
O caso Ronaldinho é muito complexo. Comecei a tentar escrever algo umas três vezes, mas nem eu sabia bem onde queria chegar. Estou confuso. Não sei como reagirei ao certo, se ele vier.
Sou um defensor da honra, da dignidade, de sentimentos intangíveis que moldam o futebol, esse esporte que não é forjado pela lógica, e sim pela paixão. Mas por outro lado tenho uma formação acadêmica extremamente alicerçada por conceitos de marketing. Sei o quão benéfico para o clube seria a vinda do dentuço.
Não gosto dele, mas gosto do Grêmio. Meu bem-estar pessoal está diretamente ligado ao sucesso do Tricolor. Portanto, se algo é bom para o Grêmio, é bom pra mim. E nesse antagonismo de sentimentos decidi que eu não estava preparado para falar a respeito do tema. Por isso convoquei duas pessoas: uma totalmente favorável à vinda de Ronaldinho, e outra totalmente contra. Os textos deles abordam os dois lados da moeda, cutucando na ferida e exaltando os benefícios. Acho que não preciso dizer mais nada.
O primeiro texto, cutucando na ferida, é de Bruno Siegmann, servidor do TRT. Bruno é um sócio gremista de longa data, frequentador da Geral e crítico ferrenho do futebol moderno. (@brunosiegmann)
Finalizando o “embate”, a seguir quem nos escreve é Márcio Callage, Gerente Geral de Marketing do grupo Vulcabras/Azaléia. Márcio é Conselheiro do Grêmio e membro do Movimento Grêmio Independente. (@marciocallage)
ALENTAR QUEM NOS FEZ DE BABACA
Durante o ano de 1999, não eram raras as notícias que davam conta de diversas propostas do exterior pelo jovem craque, cujo contrato com o Grêmio encerrava-se no princípio de 2000. À época, motivada também pelas fortunas despejadas pela ISL, a então incompetente direção de futebol do Grêmio decidiu que não venderia o jogador e iniciou negociações para renovar seu contrato. Assim, por alguns meses, Ronaldinho cansou de declarar seu amor pelo clube que o revelara, reiterando seu desejo de permanecer. Enquanto isso, na escrivaninha de seu irmão e empresário, repousava um pré-contrato já celebrado com o Paris Saint-Germain.
Também enquanto isso, os dirigentes franceses divertiam-se com a faixa colocada no Largo dos Campeões, indicando que o Grêmio não venderia seus craques. A mesma diversão que, logo depois, tocou também aos colorados. Ronaldinho poderia ter declarado, como fazem quase todos os jogadores, que precisava pensar no seu futuro, que amava o Grêmio, mas a proposta era muito vantajosa. Poderia dizer que não aceitava ganhar menos do que outros colegas enquanto decidia os jogos em favor do Grêmio. Não. Ele optou por mentir. Com isso, ganhou uma bolada maior na transferência, fez os rivais vermelhos rirem e, principalmente, deixou cada torcedor do Grêmio com cara de otário. Ronaldinho não precisava mentir pra ficar milionário. Ele chegaria lá de qualquer forma. Integridade, enfim, não é uma das virtudes da Família Assis Moreira.
Depois disso, Ronaldinho obteve algum brilho no PSG, brigou com o técnico e foi vendido ao Barcelona, mudando a história recente do clube catalão. Nas temporadas 2004/2005 e 2005/2006, Ronaldinho jogou demais, desbancou o Real Madrid em âmbito nacional, foi duas vezes eleito melhor do mundo pela FIFA, e levou o caneco da Liga dos Campeões da Europa. Logo depois, chegou à Copa do Mundo como grande estrela e sucumbiu junto com a Seleção Brasileira. No fim do ano, teve a grande oportunidade de tentar se redimir com a torcida tricolor ao enfrentar nosso rival na final do Mundial. Novamente, omitiu-se e permitiu a festa vermelha em Porto Alegre. Desde então, o jogador que impressionou o mundo vive de gols esparsos, de alguns malabarismos e de campanhas publicitárias.
E agora ele está voltando. Mesmo sabendo quão minoritária é minha opinião, por tudo que ele fez conosco, entendo que jamais seria correto aceitar uma reaproximação. Não se trata de guardar mágoa. Eu simplesmente acharei terrível alentar um cara que me fez de babaca. Ah, mas e o marketing? Afinal de contas, futebol é negócio, não? Logicamente, não é, embora repitam essa farsa até que os ingênuos passem a acreditar. Tenham certeza que para alguns é muito vantajoso que a torcida aceite que se trata de um negócio. O certo é que, para o Assis, é claramente um negócio. Pra mim, não. Futebol, pra mim, é o Grêmio, um sentimento que não tenho sequer coragem de tentar explicar. E isso envolve honra, dignidade, orgulho, reputação. Todos esses valores, tão caros pro torcedor, são agora ignorados pela nova direção do Grêmio.
Mas o pior de tudo é o contexto. O Grêmio chega à Libertadores 2011 com excelentes perspectivas. Depois de anos, temos uma base forte a ser mantida, um técnico que é nosso grande ídolo e um elenco que acabou de fazer campanha incrível no segundo turno do Brasileirão. Eu estava muito confiante. Agora, o que vejo é um único atleta no qual serão depositadas todas as esperanças da torcida e, pior, do próprio elenco. E esse atleta tem no currículo episódios de absoluta falta de caráter e de amareladas já históricas. Além disso, não demonstra um futebol que lhe garanta a titularidade do Grêmio há quase seis anos. Perigosamente, o Grêmio coloca um projeto de marketing à frente do futebol às vésperas da Libertadores.
Em síntese, a tendência clara é que a sagrada camisa do Grêmio, na qual Ronaldinho pisou, torne-se um painel publicitário pra bancar os salários e as festas de um cara que, a toda evidência, vai novamente amarelar quando mais precisarmos dele, como faz há anos. Está claro que, no momento, o Grêmio é muito mais vantajoso ao Ronaldinho do que o contrário. O Grêmio definitivamente não precisa disso. Nosso objetivo principal não pode ser lotar nosso manto de marcas e vendê-lo pra consumidores chineses. Nossa meta, nossa obsessão, é a vitória, a glória. E nossa história mostra que um técnico como Renato, dirigindo um time aguerrido e com qualidade, alentados pela melhor torcida do Brasil, é mais do que suficiente para superarmos qualquer adversário. Éramos gigantes antes do Ronaldinho. Continuamos gigantes depois da traição dele. E voltaremos ao Mundial sem sua ajuda.
Podem acreditar.
Bruno Siegmann.
QUANTO VALE A MÁGOA?
A essência do marketing é criar valor. Seja para uma marca, produto, serviço ou pessoa.
É fazer algo valer mais. No caso de um clube de futebol, é a mesma coisa.
Ronaldo no Grêmio já é, em si, a maior ação de marketing da história do tricolor gaúcho.
Não digo a maior vitória. Não digo o fato mais importante da história do clube. Jamais.
Mas repito: já é, por si só, a maior ação de marketing que o clube já realizou.
Com apenas um movimento, o Grêmio passa a ser pauta, da noite pro dia, de uma hora para outra, da mídia esportiva do mundo todo. Um search no Google ou no twitter já mostra isso.
Mas a torcida do Grêmio ainda questiona. O que o mundo não sabe é que existe uma ferida aberta nessa relação.
A saída do Ronaldo não foi das coisas mais bacanas que aconteceram na história do Grêmio. Pelo contrário.
O Grêmio deixou de ganhar. O torcedor se sentiu traído.
E até então, imaginar a volta do maior jogador já revelado por um clube no Rio Grande do Sul, parecia improvável.
Parecia.
Agora, encaremos os fatos: vivemos do presente.
Pensando no melhor para o Grêmio HOJE - e é assim que estou pensando -, é impossível negar: o Grêmio tem muito a ganhar com a volta do Ronaldinho. Basta amarrar bem o negócio e ele querer jogar.
E, neste ponto, confio demais da nova direção gremista. E na força do Renato, que fala de igual pra igual com um jogador como o Ronaldo.
Para mim, é só isso que deveria interessar aos torcedores do imortal tricolor: vamos ganhar muito com isso.
Fui convidado para dar uma entrevista a uma rádio e comecei a listar alguns pontos que não poderia deixar falar. Parei logo no início, do contrário a rádio passaria 24 horas comigo no ar.
Vou listar pra vocês, deixando claro que essas são as primeiras coisas que surgiram na minha cabeça. Muito mais pode e será feito:
- Ações envolvendo a venda da camisa dele. O Ronaldo é patrocinado pela Nike. Mas a camisa do craque que os fãs do mundo todo querem é a camisa que ele usa pra jogar. E essa camisa, meu amigo, é azul, preta e branca. É do Grêmio. Ou seja: grana pra nós. Valor para o clube.
- Ainda sobre a camisa oficial: é certo que na negociação com a marca esportiva, o Grêmio levou um valor maior de luvas/contrato e tem um royalty maior na venda das camisas dele. Temos mais força na negociação com este fato. Ao vezes chega ao dobro. Já vivi um caso parecido com o Flamengo/Olympikus/Adriano e digo: todos ganham muito com a venda da camisa.
- Linha especial de vestuário: o Grêmio pode, e deve, lançar uma linha casual Ronaldinho/Grêmio. Camisetas retrô, de algodão, casuais, casacos, enfim. Mais royalties, mais receita. Mais gente usando a marca Grêmio em todos os lugares. Sem falar de outros produtos licenciados: bonequinhos, chaveiros e tudo mais que poder ser feito.
- A coisa mais importante do marketing é, sem sombra alguma de dúvida, o produto. No caso do futebol, o produto é o TIME. Time bom lota estádio, vende camisa, tem mais sócios e dá mais volta olímpica. Ou seja: vale mais. Cria valor. E o Grêmio, vai ter mais do que um jogador em campo: vai ter um fato.
Quantos clubes tem, no elenco, um jogador que já foi campeão do mundo vestindo a camisa do seu país?
Quantos clubes tem, no elenco, um jogador que já foi eleito melhor jogador do mundo?
Quanto clubes tem, no elenco, um jogador que já foi eleito DUAS VEZES melhor jogador do mundo?
Quantos clubes, NO MUNDO, tem isso?
Pois o Grêmio tem.
Com isso, o clube pode criar pacote de vendas antecipadas de ingressos. O Gauchão passa a ser interessante. Torcedores do estado e do país todo vão querer assistir Ronaldo em campo. De novo: mais valor para o Grêmio.
- Novos sócios: a nova diretoria, buscando a profissionalização do clube, anunciou a contratação de um executivo de marketing. O objetivo: 100.000 sócios em 18 meses. Com a vinda de Ronaldo, sinceramente, já acho muito tempo. O Grêmio tem a maior torcida do RS, 100 mil sócios deve ser apenas o primeiro passo. E esse prazo deve ser reduzido em pelo menos 6 meses.
- Imagem internacional: o Ronaldo tem espaço na mídia do mundo todo. Qualquer jogada, gol, passe sobrenatural, vai colocar o time nos telejornais esportivos, internet, jornais e revistas de diversos países. A visibilidade do Grêmio ao redor do mundo certamente vai gerar mais convites e maior cachê para amistosos fora do país.
- Jogos em todo Brasil passam a ter mais importância. O time é notícia em
qualquer cidade que for jogar.
- Mais transmissões de jogos na TV aberta.
Isso significa que na hora que o Grêmio for negociar qualquer marca na sua camisa, vai negociar uma maior exposição do patrocinador. Ter a marca no camisa do Grêmio passa a valer mais.
Sim, o time passa a ter muito mais visibilidade. Muito mais valor. E isso volta para o campo, inclusive: outros empresários e jogadores terão mais interesse na vitrine que o Grêmio representa, facilitando negociações no futebol.
Enfim, poderia listar muito mais, mas quando cheguei neste ponto, ao menos eu já estava convencido: que venha Ronaldo.
Márcio Callage.
Enfim, agora é esperar pra ver. Queria agradecer aos dois amigos pelos belos e esmerados textos, e que nosso Grêmio seja imbatível em 2011, aconteça o que acontecer.
Saudações azuis, pretas e brancas.
COMENTÁRIOS REATIVADOS!!!