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Venceu o mais vaidoso

25 de julho de 2011 56

Foto: Nauro Júnior / Agência RBS

Esses dias ouvi alguém comentando que a Seleção Brasileira FEMININA de futebol era menos vaidosa que a masculina. De fato, as meninas são mais simples, de menos frescura, menor variedade de cabelos, penduricalhos e afins. Mas, na verdade, elas são MAIS vaidosas.

Cabelo “diferentoso”, malemolência marota canarinho, gírias de boleiro, boné estiloso, correntes personalizadas, chuteiras fosforescentes, brinco de ouro: isso tudo é reflexo de vaidade na RUA, no SÍTIO, numa FESTA. Não no futebol.

O Uruguai, obviamente aliando isso à qualidade técnica de seus atletas, mostrou ser um dos times mais VAIDOSOS da Copa América. A maioria de seus jogadores têm ou cabelos longos, remetendo a um certo desleixo, ou rapado, denotando praticidade. Nenhum moicano, nenhum pintado, nenhuma trancinha, nada. Cadê a vaidade então?

Como eu falei, minha visão de vaidade, NO FUTEBOL, é outra. A boleiragem brasileira confunde as coisas. O vaidoso é o cara com o ORGULHO aflorado. É um sujeito altivo, preocupado com sua imagem. Pois bem: nada melhor para a imagem de um atleta do que a glória máxima de um título. O verdadeiro vaidoso é aquele que entra em campo com sangue nos olhos. Pra ele só a vitória importa. Ele vira um TORCEDOR em campo. Não se preocupa em ser o autor do gol, desde que o time vença. Não se preocupa com João Sorrisão, nem com dancinha sertaneja. Ele faz o gol e sai urrando, genuinamente, pois sua vaidade não permite tamanha frieza nesse momento tão sublime.

Na Final contra o Paraguai, um dos lances que mais me chamou a atenção na partida foi quando o uruguaio Diego Perez saiu correndo como se não houvesse amanhã para evitar que uma bola saísse pela linha de fundo em tiro de meta para o adversário. Ele saiu trotando como quem vai tirar o pai da forca. Como se aquilo fosse a coisa mais importante na sua vida. E de fato era. Pobre dos boleiros que não têm essa noção. Ao fim da corrida, “El Ruso” se joga na bola, evita a saída, e ainda tem a inteligência e a MALEMOLÊNCIA (essa me serve) de conseguir chutá-la nas pernas do adversário que chegava na marcação. Escanteio. Estádio delira. Vaidade de Perez nesse momento chegou a níveis que moicano nenhum proporcionará a ninguém. Saiu do lance com o peito estufado, soberano.

Ao fim do jogo os vaidosos jogadores uruguaios cantavam músicas de torcedores, pois é o que eles são. Pareciam crianças, era contagiante. Era genuíno. A entrega durante os 90 minutos não era forçada, e depois do apito final isso ficou bem claro. As gotas de suor derramadas dentro das quatro linhas não tinham um salário ou um contrato publicitário as justificando. Elas eram derramadas porque tinham 11 corações celestes em campo.

Nós, gaúchos, somos taxados de bairristas. Temos orgulho de nossa história, nossa cultura. Acho muito bonito saber o hino, cultivar tradições, etc. Eu mesmo sou um defensor dos costumes das Províncias de São Pedro. Mas vale a reflexão: será que esse nosso ORGULHO gaúcho também não é meio vazio? Ficar dizendo que somos os melhores nisso, naquilo, que temos mulheres bonitas, povo guerreiro, onda separatista e o escambau, não é uma forma de “ostentarmos nosso moicano”? Não é uma vaidade “ERRADA”?

Explico: o povo uruguaio podia ser muito mais ufanistas que o gaúcho, no sentido da vaidade. E acho que não são. Em vez de ficarem dizendo que são isso, são aquilo, eles simplesmente FAZEM. Deixam os outros dizerem que eles são os caras. Um país com a população DA GRANDE PORTO ALEGRE é simplesmente bicampeão mundial, bicampeão olímpico e 15 vezes vencedor da Copa América. É assustador. Não estou delirando, a população do país inteiro é equivalente a da Grande Porto Alegre, talvez até menor.

A reflexão que faço é no sentido de questionar esse nosso orgulho. Em vez de ficarmos martelando que nossos antepassados defenderam as fronteiras do Brasil, que nosso estado tem uma rica cultura, que a Gisele Bündchen é daqui, não seria mais adequado estufarmos o peito por ser um povo educado e culto? Estamos parecendo os boleiros brasileiros, nos envaidecendo por “tolices”. Seria melhor se envaidecer por caneco, por acreditar até o fim em toda bola aparentemente perdida. Olhar menos para o passado ou para o penteado e se orgulhar de SEUS PRÓPRIOS feitos.

Legal tudo que o Garibaldi fez. Mas E TU? Fizeste o que? Os uruguaios não ficaram palestrando sobre as outras 14 Copas América. Eles foram lá e conquistaram a 15ª. Por que o gaúcho não se interessa mais por política, não se preocupa em separar o lixo, em ser solidário com desconhecidos, hospitaleiro com visitantes, consumidor de cultura, leitor assíduo de livros? Esses seriam belos motivos pelos quais poderíamos nos orgulhar e estufar o peito. E aí não precisaríamos ficar gritando aos quatro ventos que somos um povo diferente: todos estariam cansados de saber.

Enfim, quando defendo um Grêmio mais uruguaio ou até mesmo argentino, é disso que falo. Sem abrir mão da qualidade, e isso nem está em discussão, mas que os jogadores tenham ALMA. Que seja menos boleiro malemolente e mais raçudo. Desejo que os jogadores que venham a jogar no Grêmio sejam, além de qualificados, VAIDOSOS. Mas aquela vaidade VERDADEIRA.


Saudações azuis, pretas e brancas.
@lucasvon



Não é ciência exata

05 de julho de 2011 37

Foto: Ronaldo Bernardi

Futebol é tão complexo, imprevisível e SUBJETIVO que gera discussão até mesmo sobre fatos que JÁ ocorreram. Quem jogou mais, Fulano ou Ciclano? Quem foi melhor naquele jogo, Time A ou time B? As respostas vão variar, sem uma verdade absoluta. E quando se coloca paixão no meio, essas análises são ainda mais deturpadas: quem nunca ouviu um analista de arbitragem dizendo que o juiz foi BEM na partida e, concomitante a isso, os DOIS times saírem de campo indignados achando que foram prejudicados?

E se já é complicado bater o martelo em definitivo para questões do PASSADO, imagina do futuro. Tô vendo muita gente sendo CATEGÓRICA em relação a contratação de Julinho Camargo. Como podem ter tanta certeza sobre algo?

Nos comentários aqui do Blog apareceram coisas que só provam o quão subjetivo e complexo é o futebol. Desde “melhor contratação dos últimos tempos” até “maior fiasco e amadorismo da história do Grêmio”. Calma, gente. Calma.

Fico mais preocupado com aqueles comentários negativos. A opinião do pessoal que vislumbra um bom trabalho do nosso novo treinador não me soa como algo categórico e puramente “analítico”, digamos assim. Obviamente essas pessoas gostaram da contratação por motivos racionais, mas sem dúvidas falam também carregadas por um certo otimismo: mais do que achar, TORCEM para que o Julinho dê certo.

Já os “Cavaleiros do Apocalipse” não torcem pelo fracasso do nosso técnico, afinal de contas, são gremistas. A opinião dessas pessoas é totalmente baseada em questões racionais. Mas aí volto ao início do texto: como podem ter essa certeza? O Felipão assumindo o Grêmio hoje não é garantia de bons resultados. Óbvio que a lógica nos diz que ele no comando de algum time tem bem mais chances de títulos do que o Silas, ou o Gallo, por exemplo. Mas são apenas chances. Felipão já fracassou muito, Vagner Mancini já faturou título nacional. É futebol, não é matemática. Nada é tão simples.

E assim como temos Felipão, Mourinho, Muricy e outros grandes técnicos que figuram num hall de vencedores que TENDEM a dar certo (e mesmo assim também perdem), óbvio que também temos alguns nomes menos cotados sob os quais a expectativa de sucesso é JUSTIFICADAMENTE menor. Mas o Julinho não se encaixa em nenhum desses grupos. Ele pode ser o Silas de amanhã, ou o Felipão do futuro. Ninguém sabe. Suas credencias são ótimas. Parece ser BEM entendido de futebol e um profissional exemplar. De onde vem o pessimismo radical de alguns?

Creio que seja um certo conservadorismo, medo do novo. Faz parte, é do ser humano. Mas vamos dar tempo ao tempo. A maioria da torcida parece estar apoiando o Julinho: foi bonito de ver no treino seu nome sendo gritado. Esse é o espírito. Com apoio e tranquilidade fica mais fácil de mostrar serviço. E não esqueçam: mesmo que ele seja o novo Mourinho, pode falhar. Ele é humano. E é futebol.


Saudações tricolores.
@lucasvon




Mata-mata X pontos corridos

09 de junho de 2011 40

Dezembro do ano 2000, há 10 anos e meio, portanto: eu vi o Brasil parado.

Até 2002 o Campeonato Brasileiro teve Final, e em 2003 começou a Era dos Pontos Corridos. No ano 2000, devido a alguns imbróglios envolvendo a CBF, o Clube dos 13 foi quem organizou o maior torneio do país, e o batizou de Copa João Havelange. Mas era o que equivalia ao Brasileirão.

A grande diferença era a reta final. Os times grandes se enfrentavam numa espécie de competição paralela e, mais pro fim, os vencedores de outros Módulos iam entrando no caminho dos gigantes. Foi nessa levada que surgiu o São Caetano. E foi justamente o azulão do interior paulista que nos eliminou nas semifinais, garantindo vaga para encarar o Vasco na grande Final. No fim, cariocas campeões.

Lembrei disso ontem, ao ver a grande partida entre Coxa e Vasco, onde os cruzmaltinos levantaram o caneco da Copa do Brasil. Que jogão! Como é bom ter uma Final. Todo mundo envolvido com a partida. Twitter BOMBANDO de comentários sobre o jogo, sobre o Coritiba, sobre o Vasco, sobre TUDO que envolvia a partida. É contagiante. E tudo isso por causa daquela que hoje é considerada a SEGUNDA maior competição nacional. Imaginem se fosse a primeira.

Dezembro do ano 2000: o Brasil parou. Mesmo sem twitter, sem toda essa tecnologia que explodiu de lá pra cá, era nítido o envolvimento total da nação em torno de uma partida. E pra mim ficou mais emblemático por dois motivos: primeiro porque eu estava na praia, no Balneário Arroio do Silva/SC, e andei pelas ruas da cidade durante o jogo. A casa do meu avô era longe do centro, onde eu me encontrava, e no trajeto até lá, com a partida já rolando, em pleno VERÃO, fui andando pelas ruas daquilo que mais parecia uma cidade fantasma. Fui olhando pelas janelas das casas no caminho e me certifiquei do óbvio: 100% das residências ligadas na Final do Brasileiro. O segundo motivo que me fez marcar bastante esse dia foi o fato de o Vasco estar enfrentando o SÃO CAETANO. Não era Gre-nal, não eram as duas maiores torcidas do país, não era duelo de multicampeões, nada disso. Mesmo com um São Caetano na Final, o país parou. Era a Final do maior campeonato nacional do Brasil.

Hoje em dia, acabou a emoção. Agora o Brasileiro se arrasta, tornando-se até meio chato em alguns momentos. Já vimos o São Paulo ser campeão com várias rodadas de antecedência jogando contra o já rebaixado América-RN. No ano em que tudo podia ser um pouco mais emocionante, com times embolados na última rodada, o Flamengo vence um Grêmio “motivadíssimo”. A torcida flamenguista celebrou o ônibus gremista na entrada do estádio. O Maracanã inteiro gritava “entrega, entrega”, incluindo os poucos gremistas presentes. Qual a graça? Qual a emoção de erguer o caneco num jogo desses? Claro, título é título, mas agora pensem em 1996 (vídeo abaixo) e vejam a diferença.

Aqui não é a Europa. Somos diferentes em vários aspectos sócio-econômicos e culturais. Não dá pra copiar tudo deles achando que vai ser o ideal aqui também.

“Ah, mas pontos corridos é mais justo”. Ok, vamos por partes.

JUSTIÇA 1

Em primeiro lugar, quer justiça vai ao tribunal. Futebol não precisa ser justo. Não precisa vencer o melhor. Adoro quando o time que foi pressionado o jogo inteiro acha um golzinho espírita no fim e vence a partida: ISSO É FUTEBOL. Se fosse pra vencer o melhor, nem precisava jogar, bastava dar o troféu pro melhor elenco. Era só ver a maior folha salarial e decretar o campeão.

Futebol gira em torno da EMOÇÃO, não da justiça. Eu adoro o gol qualificado dos mata-matas, mas será que ele é justo? Eu acho que não. Olhem o exemplo do Coxa e Vasco: cariocas venceram por 1 x 0 no Rio, paranaenses venceram por 3 x 2 em Curitiba. Vasco campeão. Justo? Eu acho que não. É mais difícil fazer gol fora, concordo, mas é mais fácil fazer gol em casa, e o Vasco fez menos que o Coritiba. Ou seja, empate.

O gol qualificado serve pra dar emoção. Pra evitar que times que jogam a primeira partida fora de casa instaurem um retrancão brabo. Pra incentivá-los a sair pro jogo buscando um golzinho valioso. Inegavelmente dá muita emoção para a competição, mas JUSTO não é. E a Conmebol deve saber disso, tanto que na FINAL da Libertadores o gol qualificado é desativado. Como quem diz: “ok, a Final já tem emoção suficiente por si só, vamos deixar a coisa mais justa aqui”.

É incoerente, portanto, defender pontos corridos erguendo a bandeira da justiça e concomitantemente a isso organizar uma Copa com gol qualificado.

JUSTIÇA 2

Mas ok, entendo o ponto de vista dos defensores dos pontos corridos. Apesar de eu discordar, sei que eles querem valorizar o time mais sólido e regular, minimizar as zebras. Mas se fizer pontos corridos classificando os 4 primeiros para as semifinais, por exemplo, talvez fosse até MAIS JUSTO, pois estaríamos avaliando a equipe em 2 critérios: regularidade (pra chegar entre os 4) e competitividade e brio (mata-mata).

Além da dita regularidade, íamos ver quem é quem nas finais, prestigiando torcidas mais decisivas, times mais “copeiros”, enfim, dois critérios em vez de apenas um. Não seria mais justo?

JUSTIÇA 3

Inter pegou o Santos totalmente reserva na Vila Belmiro. Arrancou um pontinho que pode ser decisivo no futuro. Outros times que pegarem o Santos titular na Vila não estarão tendo uma desvantagem em relação ao Inter?

América-MG vendeu mando de campo para esse mesmo Inter. Não fará isso pra todos os times. Justo? Não, mas os pontinhos somados aí vão decretar o Campeão, o G4, os rebaixados e tudo mais. Justo?

Um mata-mata finalizando o Campeonato daria uma pitada de justiça nessas arestas. Todo mundo se apega ao Santos de 2002 (Robinho, Diego e Cia) que ficou em 8º e acabou campeão, mas esquecem de vices que ficaram em segundo por 1 ponto, ou por saldo de gols. Não seria mais justo um confronto final pra ver quem é quem? Esse ponto a mais pode ser um time reserva no caminho do campeão, uma lesão de um Neymar no caminho do vice, enfim, coisas do futebol.

E é lindo de ver no começo da competição todo mundo colocando reservas por causa da Copa do Brasil ou Libertadores, times vendendo mando de campo, enfim, uma infinidade de acontecimentos que passam DESPERCEBIDOS pela opinião pública. No FIM do campeonato geram debates sobre ética, dignidade, moral e blá blá blá. Mas os pontos de agora e da reta final têm o mesmo peso. Definem título igual. Ou seja, não acho tããão justo como dizem.

RESUMINDO

Podiam manter a fórmula corrida, G4 vai pra Libertadores, tudo igual. Mas no final um mata-mata. Ou G4 faz semifinais, ou campeão de um turno contra o campeão do outro, não sei. Mas alguma coisa que nos leve a um gran finale, mais emocionante e, quem sabe, até mais “justo”.

Não teremos mais finais inesquecíveis?



Saudações azuis, pretas e brancas.
@lucasvon




Futebol, poker e vida

19 de maio de 2011 98

Desde que aprendi a jogar torneios de poker, repito a frase de que “o poker é uma metáfora da vida”. O futebol entra nesse mesmo balaio. Explicarei.

A lógica é simples: a gente pode fazer tudo certo e se dar mal, e pode fazer tudo errado e se dar bem. MAS NÃO É A TENDÊNCIA. O importante é fazer o certo, tanto no poker quanto no futebol ou na vida. Se fizeres o certo por dez vezes, pode ser que quebre a cara numas duas, mas provavelmente logrará êxito nas outras oito.

VIDA

Assim como no poker e no futebol, o fator SORTE também existe na vida. Existem casos de pessoas honestas, esforçadas e competentes que não conseguem se dar bem na vida. Pessoas que parecem carregar um carma. Claro que isso existe. MAS É A EXCEÇÃO.

Se você for uma pessoa correta, dedicada e exemplar, as PROBABILIDADES estarão a seu favor. As chances de se dar bem na vida e ser feliz aumentam bastante.

POKER

Talvez até mais do que na vida, o poker trabalha com PROBABILIDADES. Dependendo da mão que o jogador tem, da posição na mesa em que ele se encontra, entre outros fatores, a chance de ele vencer a rodada aumenta ou diminui. Um bom jogador sabe a hora certa de parar, continuar ou aumentar a aposta. Ele sabe quais são as probabilidades de sair vitorioso ou derrotado daquela mão.

Mas é claro, tem o fator SORTE. Ele pode fazer tudo certo e perder. Na última rodada pode surgir na mesa a carta perfeita para seu oponente. E aí, mesmo que ele tivesse 80% de chances de ganhar, os 20% do adversário vão acabar se concretizando. Faz parte.

Mas como eu disse antes, O IMPORTANTE É FAZER O QUE É CERTO. Pode até perder, mas fique tranquilo, pois você fez o que era certo. Siga fazendo e dará a volta por cima em breve. A grande dificuldade do poker (e por isso se estuda muito) é saber o que é o certo a ser feito em cada contexto.

FUTEBOL

No futebol é a mesma coisa. Alguns times ganham por acaso, outros ganham porque fizeram o certo. É simples. Infelizmente nosso Grêmio hoje é aquele jogador irresponsável (pra não dizer ruim) que está jogando errado esperando virar a carta milagrosa. Essa carta é um chute de longe do Douglas, uma falha épica do zagueiro adversário, e por aí vai. O imponderável.

Nosso rival, o Inter, é um exemplo de bom jogador. Eles possuem um planejamento. Não ganharam duas Libertadores e um Mundial em 4 anos graças àquela cartinha milagrosa da última rodada. O Inter vem desde 2002 aproximadamente se reformulando. O clube se renovou, se organizou. Sabe por que ganha e por que perde. Perdeu pro Mazembe, perdeu o Gauchão 2010 pra nós, quase se complicou no de 2011, perdeu pro Peñarol, foi vice Brasileiro e vice da Copa do Brasil em 2009. Citei só os “fracassos”. Em todos esses casos eles decepcionaram ou porque tiveram azar (o outro time achou a carta milagrosa) ou porque se depararam com adversários tão ou mais qualificados que eles. Mas percebam que há tempos eles estão sempre chegando, incomodando. Conquistam títulos TODOS OS ANOS desde 2002: dez anos, sem falhar. Sorte?

Em 2010 o Inter tinha um time confuso. Perdeu o Gauchão para nós e IMPLOROU para ser eliminado da Libertadores. Fossati foi um desastre, esculhembou o time. Ninguém botava fé. Mas eles são bons jogadores. Estão há tempos fazendo o certo. Erraram no Fossati, no Edu, em vários aspectos. Mas tinham um Giuliano, um D’Alessandro, etc. Não estavam com uma mão muito boa, mas eram bons jogadores. Ao verem que nenhum outro adversário estava com uma mão espetacular, foram avançando, como quem não quer nada, aos trancos e barrancos, com seu par de 10 nas mãos. Foi o suficiente.

O Grêmio é um jogador limitadíssimo. Nosso vice da Libertadores em 2007 e vice Brasileiro em 2008, na minha opinião, são bem diferentes dos “quase” colorados. Até porque eles têm títulos em meio a esses “quase”. Se algum desses nossos “quase” tivesse virado caneco, podem ter certeza de que seria a tal da carta milagrosa que ia virar. Não seriam méritos de um grande jogador.

O que nos serve de consolo é que no futebol, assim como no poker e na vida, o jogador ruim pode se dar bem, principalmente a curto prazo. O bagunçado Flamengo de 2009 foi Campeão Brasileiro na base do bumba-meu-boi. O próprio Grêmio beliscou canecos mesmo em meio a gigantescos amadorismos de sucessivas gestões. Dá pra ganhar sim. Se a gente contratar uma meia dúzia de jogadores BONS, vamos grandes na briga pelo Brasileirão 2011. Mas uma hora a corda estica demais. E todo ano será um parto pra ser competitivo e equilibrar as finanças.

Tá na hora do nosso Grêmio evoluir. Estava nesse caminho com Rodrigo Caetano, e temo que esse processo tenha desacelerado drasticamente após sua saída. Chega de AMADORES ocupando cargos de profissionais. Temos que contratar competências, e não gremismos. Não interessa o quão apaixonado é nosso Diretor de Blá Blá Blá. Quero saber se ele é qualificado. O futebol evoluiu, precisamos acompanhar seu ritmo. Foi-se o tempo romântico do amadorismo. É preciso começar a vencer de forma consistente, sabendo exatamente por que ganhou e por que perdeu.

Pra esse ano ainda nos resta apenas esperar contratações emergenciais para tentar salvar o segundo semestre. Mas a médio e longo prazo, é preciso reestruturar o Grêmio. Que pessoas jovens renovem o clube, que a politicagem corrosiva tenha fim. Que o Tricolor volte a rugir. All in!



Saudações azuis, pretas e brancas.
@lucasvon




Eles não vão conseguir

09 de abril de 2011 16

Ouço seguidamente de amigos e até mesmo desconhecidos: “eles vão acabar com o futebol”. Eu prefiro ser mais otimista. De fato, estão fazendo de tudo pra acabar com o futebol, mas acho que não conseguirão. Não tão facilmente.

Não sei nem por onde começar. Eu podia entrar em temas mais polêmicos, como a cerveja no estádio, mas vou evitar. Poderia falar também dos horários das partidas, que IMPLORAM para os estádios ficarem vazios. Mas vou abordar só a questão da “golfenização do futebol”. É o processo que visa transformar o futebol em golfe. Tema que se divide em dois tópicos:

A ELITIZAÇÃO DO FUTEBOL

Aqui poderei ser polêmico. Mas vamos lá.

Lembro até hoje do dia (acho que em 2008) em que o Inter anunciou, se não me engano na Final do Gauchão, que pela primeira vez o Beira-Rio só receberia sócios. Dos quase 60 mil presentes no estádio, uns 40 e poucos mil eram sócios, e uns 12 mil eram sócio-torcedores, aquela modalidade que paga mensalidade menor e meio ingresso. Ou seja, o clube que se intitula “do povo”, só recebeu em seu estádio pessoas com poder aquisitivo suficiente para comportar uma mensalidade em seus orçamentos.

Lembro que até a década de 90 o ambiente do estádio era outro. Por um lado, mais conturbado às vezes, é verdade. Hoje em dia é muito mais tranquilo levar uma namorada ou mãe, confesso. Mas por outro lado, lembro que o estádio era mais alegre, tinha mais povão. No intervalo uns tiozinhos na arquibancada, com alguns dentes faltando na boca, jogavam baralho animadamente para passar o tempo. Não estou exagerando, isso acontecia mesmo.

Agora o povo está mais longe dos estádios. Pelo menos no Rio Grande do Sul. Ingressos estão muito caros, e em jogo grande só entra sócio. Não que antigamente os ingressos fossem a coisa mais barata do mundo, mas as pessoas tinham opção. O cara que não tinha muitas condições de ir a todos os jogos guardava seu dinheirinho pra ir a uma final, uma semifinal. Agora ele está banido.

Tudo isso sem falar na estrutura dos estádios. O Chico Buarque disse esses tempos que tinha saudades da geral do Maracanã, com o povo pulando, correndo, dançando. Ele disse que aquele monte de cadeirinhas sendo colocadas no Maraca eram um tanto tristes. Concordo. O co-irmão extinguiu a coréia, outra lástima. E por aí vai. Espero que as cadeiras da Arena gremista sejam realmente removíveis e a gente possa armar um descontrole de vez em quando. Ainda que seja com um bando de classe-médias fazendo festa.

Daqui a pouco o povão poderá se afastar do esporte bretão, e o Brasil não será mais o país do futebol. Vai chegar um dia em que, por exemplo, um time brasileiro acabará perdendo para um africano no Mundial Intercl... Ops. Nada não, esquece.

FRESCURITE CRÔNICA

O tópico anterior pode ser polêmico porque muita gente deve discordar de mim. Os menos românticos dirão que é uma questão de oferta/demanda, que o dinheiro dos sócios é importante pro clube (mesmo sem eu ter dito o contrário), que o azar é dos pobres, nada pode ser feito, etc. Mas a questão da frescurite já é diferente. Espero que seja unanimidade.

Ok, mesmo sendo triste, eu até consigo conceber que o jogador não possa tirar a camisa ao comemorar um gol. É triste porque os patrocinadores conseguiram conquistar uma importância tão grande no futebol (o dinheiro como um todo) que chegamos ao ponto de ter uma regra criada por causa deles. Eles pagam para aparecer, portanto não podem sumir justo na hora mais importante do jogo. Essa é a lógica. Triste, mas compreensível.

O jogador tinha que comemorar como bem entendesse. Explodindo, genuinamente. Fazendo o que seu corpo mandasse naquela hora. Mas além de não poder tirar a camisa, não pode subir no alambrado também. Ah, e não pode colocar máscaras ou tocas, gorros e assemelhados. Provocar o adversário? Nem pensar! É capaz de ser expulso, julgado e pegar gancho, pois está incitando a violência. Eu discordo totalmente. Provocar o adversário é uma das premissas do futebol. Vou citar Chico Buarque novamente: perguntaram a ele se era a favor de dribles desconcertantes e PROVOCANTES, como a foquinha do Kerlon, lembram? Ele disse que obviamente era a favor, pois a ideia do futebol era justamente humilhar o adversário. Grande Chico.

Mas chegamos ao ponto em que, na Inglaterra, Rooney foi suspenso por dois jogos por FALAR PALAVRÃO depois de marcar um gol. Lamentável. Daqui a pouco vai ser proibido comemorar, pois pode soar como provocação. Ou então, será proibido fazer gol, pois deixará a torcida adversária triste. Tocar a bola para um lado e olhar para o outro será passível de expulsão, afinal de contas, é antiético e se vale do artifício da mentira para ludibriar e humilhar o adversário. Não duvidem disso.

Eu tinha 11 anos em 1996 quando, em pleno Beira-Rio, o Tricolor venceu um Gre-nal por 2 x 1. Nunca vou esquecer a cena: Paulo Nunes faz um gol de bicicleta e sai pulando em um pé só na comemoração, na frente da torcida vermelha, imitando um Saci. Essa imagem JAMAIS sairá da minha cabeça. Tenho pena das crianças e adolescentes de hoje em dia, que poderão guardar na memória no máximo algumas dancinhas sertanejas do Jonas.

Enfim, é tudo muito triste. O futebol está ficando cada vez mais robótico, mecânico, almofadinha e burocrático. Estão tirando o povo do estádio e a irreverência do campo. Realmente parece que estão tentando acabar com o futebol. Mas como eu disse no começo do texto, sou um otimista. Acho que não vão conseguir.

Por mais que eles queiram, o futebol jamais será golfe. Podem tirar o povo dos estádios, mas nunca impedirão meia dúzia de meninos a se juntarem em torno de uma latinha amassada ou de uma bola de meia. Não impedirão que um povoado ribeirinho afastado de tudo e de todos se junte em volta de um rádio para acompanhar a Seleção. Brasil afora o futebol continuará popular por muito tempo, quiçá para sempre. E por mais que inventem regrinhas estúpidas tolindo de beleza as competições oficiais, nas várzeas brasileiras sempre terá um menino com o corte de cabelo igual ao do Neymar fazendo um gol e mostrando a bunda para a torcida adversária. E ninguém morrerá por isso. Nenhuma guerra se iniciará. Todos rirão. E no próximo campeonato o time dele perderá e será provocado. E todos seguirão felizes e apaixonados pelo futebol. Queiram ou não.



Saudações tricolores.

@lucasvon





Dica pra quem gosta de futebol

05 de abril de 2011 2

Quem acompanha o Blog do Nando Gross já deve ter visto o curso do qual ele é coordenador, o Kick Off. O projeto, idealizado pela Perestroika, é um sucesso, tanto que já está em sua 4ª edição.

Eu não tinha parado ainda pra ver com calma do que se trata, mas hoje dei uma lida e achei realmente bem interessante. Fica a dica, pra quem gosta de futebol. Tanto para quem se interessa por jornalismo esportivo, quanto para quem tem olhos mais voltados aos negócios, ao futebol como business (marketing esportivo, Copa do Mundo, etc). E obviamente, também para quem simplesmente ama o esporte e tem interesse em compreender seus bastidores, táticas, teorias, etc.

Algumas curiosidades interessantes:

- Aulas confirmadas: Juca Kfouri (ESPN), Maurício Noriega (Sportv), Rodrigo Caetano (Gerente de Futebol do Vasco), Paulo Roberto Falcão (Comentarista Rede Globo), Andrey Cabral (Responsável por criar o time da RedBull), Paulo Cesar Verardi (Diretor de Marketing do Grêmio), Jorge Avancini (Diretor Executivo de Marketing do Inter), Márcio Callage (Gerente de Marketing Olympikus), jogadores da dupla Gre-nal, entre outros;

- Visita detalhada a setores dos estádios da dupla;

- O melhor aluno do curso ainda pode ser convidado a participar do Sala de Domingo (Rádio Gaúcha);

- Dois alunos poderão ganhar 1 mês de experiência no departamento de marketing do Grêmio e do Inter, acompanhando as atividades do setor;

Enfim, achei bem legal e inclusive me interessei. Não sei se ainda tem vagas pra essa edição que começa nesse segunda-feira. Mas de qualquer forma, caso não tenha, sei que em setembro já tem de novo. Ah, e sou amigão de longa data do Jean, que trabalha na Perestroika e é responsável pelo curso. Se tiver interesse, manda e-mail pra ele – jean@perestroika.com.br – e diz que é indicação do Lucas von do Blog Tricolor. Tenho certeza que ele vai fazer um precinho camarada (até porque ele é gremistão, mas não espalhem, hehe).


Saudações celestes.
@lucasvon




Não insulte o futebol, Felipão

30 de maio de 2010 116

O assunto do momento é a tentativa do Inter em trazer Felipão. Notícias recentes sugerem que talvez o destino dele seja mesmo o Inter, mas de Milão. Tomara.

Desejo com todas minhas forças que seja equivocada essa informação de que ele tenha recebido uma proposta e estaria analisando a mesma. Não abomino essa hipótese só pelo fato de que o Scolari é um baita técnico e eu, assumidamente, torço pelo insucesso do nosso rival. O furo é mais embaixo. Eu espero que o Felipão sequer tenha analisado essa proposta pelo bem do futebol. Pelo bem de tudo que eu e milhões de apaixonados pelo futebol espalhados pelo mundo acreditamos.

Desculpem-me pela petulância no que direi agora, mas vocês que estão achando tudo isso muito normal “porque o Felipão é um profissional” ou porque “futebol é assim, movido pelo dinheiro” estão errados. A gente não pode achar isso normal.

Se você trabalha numa empresa com um salário de X reais, e a concorrente direta te oferece um cargo bem melhor, com um salário de 3X, ok, é totalmente normal que você aceite e mude de lado. Nesse caso eu aceito ouvir profissionalismo, dinheiro, carreira e o escambau. Mas a normalidade não caminha ao lado do futebol: um esporte MOVIDO pela paixão, pela devoção. Movido por milhões de fiéis que GASTAM dinheiro por seus clubes, pedindo em troca apenas que honrem aquela camisa. Nada disso se encaixa num exemplo convencional e frio de uma empresa.

Como eu sempre digo: cadê a lógica em milhões de pessoas chorando, sorrindo e se emocionando por 11 marmanjos correndo atrás de uma esfera de couro? Cadê a lógica num país inteiro explodindo em euforia porque essa esfera de couro entrou num retângulo e estufou uma rede? Cadê a normalidade quando nos deparamos com milhares de mesas de bares mundo afora tomadas por calorosas discussões, motivadas por simples cores e escudos? Se alguém vê alguma lógica nisso tudo, se alguém consegue me dizer que o futebol é algo totalmente racional e pragmático, então tudo bem. Então poderei concordar que o Felipão treinar o Inter é como você mudar de empresa.

Não sou tão romântico assim. Tampouco ingênuo. Sei que o futebol é um negócio, e muito lucrativo. Sei que a maioria dos profissionais do meio, ao contrário de sua legião de fãs, é movida somente por dinheiro. Sei de tudo isso. Mas tudo tem um limite. Quando a situação passa a ser um desaforo, um desrespeito, até mesmo uma agressão para com uma Nação, aí alguma coisa tá errada.

E o Felipão no Inter seria um insulto. Aos gremistas e ao futebol em sua essência. “Ah, mas muitos jogadores e até mesmo técnicos que foram de algum time da Dupla Gre-nal mudaram de lado, é normal”. Depende. Eu sou um que tenho até hoje grande mágoa com o Tinga. Justamente por ele ter se criado no Olímpico, ter feito história aqui, conquistado títulos, conquistado nosso carinho, e depois ter ido declarar amor ao Inter dando a Libertadores a eles. Naquele mesmo ano de 2006 o Inter tinha o Rubens Cardoso no elenco. Alguém aí ficou triste com o Rubens? Óbvio que não. Nesse caso se encaixa a normalidade de uma empresa. Rubens Cardoso foi só um PROFISSIONAL do Grêmio. Foi pro Inter e ninguém lamentou. Tinga foi um ídolo, é diferente.

Felipão, nem se fala. Ele é parte da nossa história de glórias. E GRANDE parte dessa história. Sempre se disse gremista. Felipão, ao menos aqui no Sul, é sinônimo de Grêmio. Indo para o Inter ele não só irá nos trair, como irá decepcionar centenas de criancinhas tricolores que têm seu pôster colado na parede do quarto. Milhões de gremistas, crianças ou adultos, com pôster ou sem, que veneram esse senhor de bigode. Ele tem que estar ciente de que hoje ele é venerado pela “metade maior” do RS e respeitado pela parte vermelha. Se for para o Inter, será apenas “gostado” pela parte vermelha (venerado só com títulos) e odiado por grande parte dos azuis, que ainda serão gratos a tudo que ele fez por nós, mas não esquecerão também de sua traição. Não tem sentido ele fazer isso.

Ele tem mercado em vários outros clubes mundo afora, e até no Brasil. Não precisa ir para o Inter. Mesmo vocês que falam no tal do dinheiro, hão de convir que ele não precisa desse dinheiro. Eu garanto que não. E se precisasse tanto, não precisava ser do Inter, pois, como eu disse, ele tem mercado onde quiser.

Quem acha normal e legal o Felipão ir para o Inter, favor não vibrar, muito menos chorar, no próximo título do Tricolor. Pois não faz sentido se emocionar com uma coisa banal como o futebol. Você chora quando sua empresa é recordista de vendas?

Quem quiser achar normal, repito, acredito que vocês estão errados, mas respeito suas opiniões. Mas se ele for para o Inter, num futuro, quando eu estiver num restaurante com meu filho pequeno e avistá-lo em outra mesa, direi ao guri apenas que aquele bigodudo ali foi um dos maiores técnicos que o Grêmio teve na história. Direi mais: foi um dos melhores PROFISSIONAIS que já passou pela Azenha. Mas, se na mesa ao lado estiver um Portaluppi ou um Danrlei, aí, amigos, irei com o guri até a mesa do ídolo em questão para pedir um autógrafo, e direi a ele que sentado nessa mesa está um dos maiores GREMISTAS de nossa história.

Saudações azuis.

EDITADO: Colorados, os comentários são moderados e temos a recomendação de não aceitar mensagens de vocês. Abro exceção apenas para alguns, respeitosos e de teor neutro, que não sejam contra o Tricolor. São normas, para evitar réplicas e mantermos o nível do debate. Estamos falando do Felipão, e não do Inter. Para debater o colorado, sugiro que entrem no Blog Colorado. Obrigado.