Foto: Nauro Júnior / Agência RBS
Esses dias ouvi alguém comentando que a Seleção Brasileira FEMININA de futebol era menos vaidosa que a masculina. De fato, as meninas são mais simples, de menos frescura, menor variedade de cabelos, penduricalhos e afins. Mas, na verdade, elas são MAIS vaidosas.
Cabelo “diferentoso”, malemolência marota canarinho, gírias de boleiro, boné estiloso, correntes personalizadas, chuteiras fosforescentes, brinco de ouro: isso tudo é reflexo de vaidade na RUA, no SÍTIO, numa FESTA. Não no futebol.
O Uruguai, obviamente aliando isso à qualidade técnica de seus atletas, mostrou ser um dos times mais VAIDOSOS da Copa América. A maioria de seus jogadores têm ou cabelos longos, remetendo a um certo desleixo, ou rapado, denotando praticidade. Nenhum moicano, nenhum pintado, nenhuma trancinha, nada. Cadê a vaidade então?
Como eu falei, minha visão de vaidade, NO FUTEBOL, é outra. A boleiragem brasileira confunde as coisas. O vaidoso é o cara com o ORGULHO aflorado. É um sujeito altivo, preocupado com sua imagem. Pois bem: nada melhor para a imagem de um atleta do que a glória máxima de um título. O verdadeiro vaidoso é aquele que entra em campo com sangue nos olhos. Pra ele só a vitória importa. Ele vira um TORCEDOR em campo. Não se preocupa em ser o autor do gol, desde que o time vença. Não se preocupa com João Sorrisão, nem com dancinha sertaneja. Ele faz o gol e sai urrando, genuinamente, pois sua vaidade não permite tamanha frieza nesse momento tão sublime.
Na Final contra o Paraguai, um dos lances que mais me chamou a atenção na partida foi quando o uruguaio Diego Perez saiu correndo como se não houvesse amanhã para evitar que uma bola saísse pela linha de fundo em tiro de meta para o adversário. Ele saiu trotando como quem vai tirar o pai da forca. Como se aquilo fosse a coisa mais importante na sua vida. E de fato era. Pobre dos boleiros que não têm essa noção. Ao fim da corrida, “El Ruso” se joga na bola, evita a saída, e ainda tem a inteligência e a MALEMOLÊNCIA (essa me serve) de conseguir chutá-la nas pernas do adversário que chegava na marcação. Escanteio. Estádio delira. Vaidade de Perez nesse momento chegou a níveis que moicano nenhum proporcionará a ninguém. Saiu do lance com o peito estufado, soberano.
Ao fim do jogo os vaidosos jogadores uruguaios cantavam músicas de torcedores, pois é o que eles são. Pareciam crianças, era contagiante. Era genuíno. A entrega durante os 90 minutos não era forçada, e depois do apito final isso ficou bem claro. As gotas de suor derramadas dentro das quatro linhas não tinham um salário ou um contrato publicitário as justificando. Elas eram derramadas porque tinham 11 corações celestes em campo.
Nós, gaúchos, somos taxados de bairristas. Temos orgulho de nossa história, nossa cultura. Acho muito bonito saber o hino, cultivar tradições, etc. Eu mesmo sou um defensor dos costumes das Províncias de São Pedro. Mas vale a reflexão: será que esse nosso ORGULHO gaúcho também não é meio vazio? Ficar dizendo que somos os melhores nisso, naquilo, que temos mulheres bonitas, povo guerreiro, onda separatista e o escambau, não é uma forma de “ostentarmos nosso moicano”? Não é uma vaidade “ERRADA”?
Explico: o povo uruguaio podia ser muito mais ufanistas que o gaúcho, no sentido da vaidade. E acho que não são. Em vez de ficarem dizendo que são isso, são aquilo, eles simplesmente FAZEM. Deixam os outros dizerem que eles são os caras. Um país com a população DA GRANDE PORTO ALEGRE é simplesmente bicampeão mundial, bicampeão olímpico e 15 vezes vencedor da Copa América. É assustador. Não estou delirando, a população do país inteiro é equivalente a da Grande Porto Alegre, talvez até menor.
A reflexão que faço é no sentido de questionar esse nosso orgulho. Em vez de ficarmos martelando que nossos antepassados defenderam as fronteiras do Brasil, que nosso estado tem uma rica cultura, que a Gisele Bündchen é daqui, não seria mais adequado estufarmos o peito por ser um povo educado e culto? Estamos parecendo os boleiros brasileiros, nos envaidecendo por “tolices”. Seria melhor se envaidecer por caneco, por acreditar até o fim em toda bola aparentemente perdida. Olhar menos para o passado ou para o penteado e se orgulhar de SEUS PRÓPRIOS feitos.
Legal tudo que o Garibaldi fez. Mas E TU? Fizeste o que? Os uruguaios não ficaram palestrando sobre as outras 14 Copas América. Eles foram lá e conquistaram a 15ª. Por que o gaúcho não se interessa mais por política, não se preocupa em separar o lixo, em ser solidário com desconhecidos, hospitaleiro com visitantes, consumidor de cultura, leitor assíduo de livros? Esses seriam belos motivos pelos quais poderíamos nos orgulhar e estufar o peito. E aí não precisaríamos ficar gritando aos quatro ventos que somos um povo diferente: todos estariam cansados de saber.
Enfim, quando defendo um Grêmio mais uruguaio ou até mesmo argentino, é disso que falo. Sem abrir mão da qualidade, e isso nem está em discussão, mas que os jogadores tenham ALMA. Que seja menos boleiro malemolente e mais raçudo. Desejo que os jogadores que venham a jogar no Grêmio sejam, além de qualificados, VAIDOSOS. Mas aquela vaidade VERDADEIRA.
Saudações azuis, pretas e brancas.
@lucasvon





