Foto: Tatiana Lopes
Torcedores gremistas fizeram um trapo para nosso lateral direito. Até aí, tudo bem. Nada muito absurdo no fato de uma torcida homenagear um jogador do seu time, muito menos se tratando do melhor do elenco.
O Mário não é meu ídolo. Não tenho um carinho por ele nem PERTO daquele que tenho por Jardel, Danrlei e até mesmo Renato, que sequer vi jogar em Tóquio. É um guri novo que precisa provar muito ainda no clube e, para se tornar ídolo de verdade, precisa de título. Isso é indiscutível.
Entretanto, acompanhei opiniões de jornalistas e torcedores veementemente contrárias à atitude da torcida. Os discursos, de modo geral, seguiam esses moldes:
- Estamos nos apequenando. Homenagear um rapaz que não ganhou nada no clube é vergonhoso.
- Torcida gremista festeja a falta de profissionalismo com homenagens. Absurdo.
Discordo das duas linhas de pensamento. Vou começar falando da última: ok, também acho que não foi a coisa mais legal do mundo ele não ter comparecido ao amistoso da Seleção. Sei que não foi por amor ao Grêmio e sei que aquela cabecinha é um tanto conturbada. Mas, e aí?
Como eu falei em outro texto, a chuva não cai com propósitos, ela simplesmente cai. Se uma chuva cancelar um compromisso ao qual tu não estavas nada afim de comparecer, pode ficar feliz, mesmo que a chuva não tenha caído com aquele propósito específico. O torcedor do Grêmio adorou o fato de um atleta gremista desdenhar quem já nos aprontou algumas: já nos tirou Paulo Nunes da reta final de Libertadores, por exemplo. Eu mesmo fiquei meio feliz ao ver manchetes dizendo que “gremista diz não à Seleção”. Ele disse não à CBF, ao Ricardo Teixeira. Por mais que a negativa tenha sido motivada por razões obscuras, o resultado final é o mesmo.
Some tudo isso a um menino carismático, com fama de louco, talentosíssimo, e defendendo as cores de uma torcida que ostenta o lema VIVEMOS DE LOUCURA. Pronto, manda fazer o trapo. E além do mais, quem disse que ele realmente não estava se sentindo à vontade de ir a Belém? Pode ter sentido algo que só cabe a ele entender. Acho precipitado sentenciar que foi “falta de profissionalismo”. Perder o avião pode ter sido, mas isso acontece toda hora. Até o Ganso já perdeu avião numa apresentação da Seleção. A decisão de não ir mesmo depois é que é a incógnita.
E sobre a idolatria, já mudei de opinião. Antigamente eu achava idiota trapo pro Sandro Goiano. Achava que só Danrlei, Dinho, Lara e companhia mereciam. Quer saber? Por que não pro Mário?
Um amigo meu costuma dizer que existem “fiscais de torcida”. Ele acha patético gremistas e colorados mensurando o quão comemorado pelo rival foi uma Recopa, um Gauchão, uma vaga à Libertadores, etc. Aquela coisa: “nossa, ganharam a Recopa e estão em êxtase”. “Meu Deus, ganharam Gauchão e parece que foi Mundial”. Concordo com ele. Deixa a torcida comemorar o quanto quiser e PARA O QUE QUISER. Nem sei o que esse meu amigo pensa sobre os trapos, mas seguindo essa lógica dos “fiscais de torcida”, acredito que o caso é semelhante.
Vamos ter que esperar surgir um novo Jardel para fazermos bandeiras para nossos atletas? Por que? Futebol é o agora também, não é só título. Nas peladas com amigos, quando faço gols estranhos saio gritando “AFONSÃO, TEU POVO TE AMA!” Meu gremismo vive também de Zé Afonso, Zé Alcino, Marinho. Não só de Adilson Batista, Jardel e Renato. Se o sujeito quiser fazer um trapo para o Itaqui por algum motivo, DEIXA ELE. Tu pode não achar legal o trapo, mas a atitude do cara é válida. Não cabe a mim ou a ti julgar se a atitude dele é legal ou não. A não ser que o trapo fosse pro Ronaldinho ou algum outro sujeito que carregue consigo objeções fortes extra-campo que firam o Grêmio ou os gremistas.
Meu ídolo da infância foi o Gilson Cabeção. Isso antes do Grêmio começar a ganhar tudo na Era Felipão. Eu seria uma criança feliz com o trapo dele. Acharia ridículo ouvir represálias dizendo que ídolo de verdade era o Tarciso e que meu trapo era um reflexo do momento ruim e mimimi.
Muitos trapos que vi já discordei, ou melhor, não gostei. Por isso eu digo que já fui contra essa banalização de homenagens. Por exemplo, Jonas? Não fazia muito sentido. Mas que diferença fez pra mim? Só me “irritei” de graça. Deixa o cara homenagear quem ele bem entender. Cada um virou gremista por um motivo, cada um tem seu jogo da vida específico, seu momento marcante, sua história de gremismo. Deixa cada um ter seu ídolo também, seja ele o Mazaropi ou o Rafael Marques. Seja ele uma múmia de tanto título ou um guri meio louco que já fugiu de Porto Alegre uma vez e logo depois negou a Seleção Nacional justamente para ficar em Porto Alegre. Futebol não precisa de lógica. Quem procura muito por ela pode até acertar às vezes nas análises, mas certamente vive uma vida futebolística mais triste.
Saudações azuis, pretas e brancas.







