
Foto: ducker.com.br
Sobre o jogo de ontem, não há muito o que se falar. Não achei que jogamos tão mal. Mas o time do Grêmio é isso, tem suas limitações. Perdemos para o Flamengo no RJ, resultado absolutamente normal até para um time que briga pelo título. Nossa posição na tabela se justifica por pontos perdidos em casa, ou contra Figueirenses da vida. Mas não é sobre a partida de ontem especificamente que vou falar. É sobre “culhão”, com o perdão do termo.
Não quero crucificar o Victor aqui. Primeiro porque ainda acho que ele tem crédito, e segundo porque é de fato um baita goleiro, nível de Seleção. Mas fica difícil não falar dele depois do ocorrido no Engenhão.
Nosso goleiro é um reflexo desse Grêmio dos últimos anos. É, provavelmente, o jogador mais qualificado tecnicamente que já vi ostentando nossa camisa 1 nesses meus 26 anos de gremismo. E não é meu ídolo.
Título tem uma influência gigantesca para que uma idolatria seja criada, concordo. Isso infelizmente não favorece nosso atual goleiro, que não tem culpa alguma de não ter um time vitorioso à sua frente. Mas não é só título que faz um ídolo. Muitos jogadores que ergueram canecos na Azenha foram esquecidos. Outros, com títulos menores e até com a ausência deles, são mais lembrados e festejados pelas bandas do Olímpico.
Atitude e personalidade: isso que falta ao time do Grêmio há tempos. Isso que quase todo ídolo tem. Sei que falar do Danrlei é fácil, pois o cara ficou mais de 10 anos no Grêmio e virou uma múmia, de tanta faixa. Mas será que é só por isso que ele é meu maior ídolo? Será que não é também porque ele tinha sangue nas veias?
Danrlei FECHAVA O GOL em jogos importantes. Não era melhor que o Victor tecnicamente falando. Mas virava um muro quando o bicho pegava. Victor é um monstro em jogos aleatórios, contra o Goiás, contra sei lá quem, e falha contra o Inter, contra o mercenáR10. Isso é grave. Isso é um reflexo desse Grêmio perdedor dos últimos tempos.
Não sou ninguém pra julgar nosso goleiro no que tange a sua vida pessoal, estou aqui apenas para falar dele enquanto atleta. Mas nunca esqueço quando o Grêmio venceu a Taça Fernando Carvalho: fui ao Barranco jantar e lá se encontrava toda a delegação gremista, que foi comemorar o “título”, como é de costume. Saí decepcionado com nosso então Capitão.
Todos os jogadores, dirigentes e pessoal da comissão técnica entravam por uma porta lateral e passavam pelo “povo” até chegar ao espaço reservado a eles. Nesse trajeto eram saudados pelo pessoal das outras mesas, aplaudidos, festejados. Obviamente algumas pessoas pediam autógrafo ou foto. TODO MUNDO foi solícito. Do Presidente Duda, aos jogadores, passando pelo Silas, enfim, TODO MUNDO. Lembro do Hugo, por exemplo, com uns 14 filhos pendurados no colo, no carrinho, por tudo. Parou, atendeu a todos. Adilson conversou com todo mundo, tirou fotos, foi simpático. Enfim, todo mundo. Menos o Victor.
Ele passou com sua esposa e foi um dos mais ovacionados pelo restaurante. Algumas pessoas pediram foto, ele deu uma desacelerada hesitante, sua mulher o puxou e ele seguiu andando, meio desconcertado. Rolou um princípio de vaia pra ele. Vaia pro cara que acabara de erguer uma taça representando seus 8 milhões de torcedores. Ele não se deu conta do que representa isso. Ele não se deu conta que só ganha o salário que ganha por causa desses “chatos” pedindo fotos. Não se deu conta de muita coisa.
E por mais idiota e irrelevante que essa historinha possa parecer, pra mim ela significa muito. Esse cara que não se impõe num restaurante frente à sua torcida, não vai se impor contra o Ronaldinho ou contra o D’Alessandro. O Danrlei adentrando o Barranco provavelmente roubaria a cena, tiraria fotos com todos e se bobear ainda puxaria aquele clássico grito de “Danrlei! Tum, Tum, Tum (socando o ar e batendo palma)”.
E aí já faço um gancho com meu polêmico texto anterior, sobre o caso do mercenáR10. Pessoas me disseram que era besteira, que ignorá-lo ou odiá-lo não vai resolver nossos problemas, etc. Mas a questão é muito mais profunda que isso. Eu não tô NEM AÍ pro dentuço. O ponto é outro. Eu não queria humilhar o traíra, eu queria evitar que o Tricolor fosse humilhado. O GRÊMIO é que seria desrespeitado caso seus atletas festejassem um cidadão que pisou na camisa tricolor por duas vezes.
E aí eu pergunto: vocês acham que o Danrlei festejaria o trairúcho? Vocês acham que o Renato iria ficar amiguinho dele em campo? Acreditam que o Dinho trocaria camisa com ele? Eu diria que não. E não só pra agradar a torcida (e se fosse só isso já me bastaria), mas porque são cidadãos que têm CULHÕES. Brio, sangue nas veias. Entendem que o futebol é muito mais do que 11 contra 11 e uma bolinha no meio. Coincidência ou não, todos os times do Grêmio que foram vencedores estavam repletos de atletas com esse perfil.
Então, quando peço para que nossos jogadores sejam a personificação do torcedor em campo, não estou dizendo isso por birrinha com o Ronaldinho. Não sugeri que o ignorassem porque estou magoadinho com o mercenáR10 e quero “me vingar”. Pedi isso para que nossos atletas sejam mais sanguíneos, mais VENCEDORES. Pedi isso para, por exemplo, que o Victor tivesse deixado a vida naquela pequena área pra evitar o gol do R10. Pedi isso pra que ele não dominasse aquela bola com a displicência de quem passeia no parque e depois tentasse driblar o mercenáR10 como quem está numa pelada de domingo entre solteiros e casados.
Quando pedi aquela atitude, pedi na verdade um Grêmio orgulhoso, com brios. E isso ajuda a ser um time vencedor. Pro Danrlei não seria necessário pedir nada disso. É mais ou menos esse o ponto.
Saudações azuis.
@lucasvon
