Matéria de capa do caderno Kzuka desta sexta-feira. Vai ser replicada na New Yorker de domingo que vem.

Basicamente, todos os professores de academia se comportam como os testemunhas de jeová que batem aqui em casa todos os domingos: querem me convencer que eles estão certos. Toda vez que eu disse pra um professor de educação física que orgulhosamente mantenho um retrospecto sem lesões, recebo olhares rancorosos e mau agouro. Basicamente, como o inferno de Jeová, um dia eu vou sofrer muito por não seguir a palavra do Senhor Paulo Cintura.

Spinning
Nome chique (eles adoram esss coisas) para a velha bicicleta ergométrica. A inovação está em apagar as luzes, tocar remixes bagaceiros de músicas da moda a todo volume, e pôr pra funcionar um globo de luz colorida (o qual, verifiquei, não tem nenhum valor medicinal).
00:00 min - A professora me dá dicas com frases que não consigo entender: “domine a bicicleta, não deixe ela te dominar”. Imaginando uma revolta das bicicletas ergométricas dominadoras.
01:00 min - Minha bicicleta é a mais leve da turma (somos apenas três alunos, eu o único homem). Começa a tocar Beyonce muito alto. A professora começa a gritar “Uhu! Vamos lá”.
02:00 min - “Agora lá em cima!”. O terror me acomete ao tentar ficar de pé na bicicleta. Minha perna tenta acompanhar o ritmo da música. A professora tenta ajudar: “Esquece a música”.
02:05 min - Desisto de tentar ficar de pé.
03:30 min - Não consigo encontrar o ritmo da pedalada ao som de bate-estaca. A professora continua gritando: “Vamos guriiiiiaaaaaaaass!”
04:10 min - Levanto a camiseta para secar o suor da testa. A aluna ao meu lado deixa escapar um: “Ai, coitado!”
05:00 min - Minha pressão arterial explode. Não ouço mais os gritos da professora nem a música alta. Tudo tem um lado bom.
06:00 min - Desisto. Não consigo falar nem ouvir nada. É desmoralizante ouvir as pessoas perguntando: “Tudo bem contigo?”. Faço joinha com a mão.

Power Kids
Mais um nome em inglês que, ao contrário do que eu imaginava, não é uma aula onde ficaríamos tomando Nescau e comendo Sustagem. O professor Montanha ensina capoeira e exercícios para crianças de apartamento, que não levantam mais nem pra trocar o canal da tv. Lembro de mim mesmo.
00:00 min - Nenhum dos alunos mirins resolveu aparecer.
00:30 min - Exercícios de andar de quatro (batizei de “ritual de acasalamento do gaúcho”).
01:00 min - Meu pé esquerdo começa a doer
03:00 min - Movimentos de capoeira não são tão fáceis como parecem. Montanha, com o triplo do meu peso, parece leve; eu pareço meu vô tentando alcançar a dentadura.
06:00 min - Aprendo a ginga da capoeira. Montanha elogia: “Lembra uns alemães pra quem dei aula mês passado”.
10:00 min - Acabo no chão, derrubado por um golpe leve do Montanha e pela minha absoluta falta de equilíbrio.

Running Class
Sempre considerei a corrida em esteira um esporte que não leva a lugar nenhum. Principalmente porque, de fato, você não sai do lugar. Mas dessa vez percebi uma incrível inovação: agora as esteiras de corrida têm televisores portáteis, que infelizmente não passam Playboy Tv (obviamente foi a primeira coisa que verifiquei).
00:00 min - Professor César me explica o principal: antes de morrer, devo apertar o botão “parar” da esteira.
01:00 min - Correndo a 5km/h e assistindo SporTv. nada mal.
03:00 min - Levo um choque ao tentar verificar meus batimentos cardíacos no apoio da esteira.
04:30 min - Correndo a 7km/h, meu coração dispara: professor Renam me conta o preço da mensalidade da academia.
09:00 min - Estou completamente vermelho, suado e fedido. Zero chance com qualquer gatinha da aula (não que antes eu tivesse alguma chance).
12:00 min - Renan desliga a máquina antes que eu tenha um AVC. Ele explica: “Seria má publicidade pra academia”.
12:30 min - O bebedouro é meu melhor amigo.

Ginástica funcional
Mais um equívoco da minha parte: esta aula não tem a ver com funcionamento do intestino. Com certeza esta foi umas das experiências mais desagradáveis que tive em toda a minha vida, e me trouxe lembranças de quando as crianças roubavam meu lanche na escola, torcendo meu braço pra trás.
00:00 min - O primeiro exercício é deitado. Fico feliz.
01:00 min - Sinto a primeira dor descomunal do dia. A professora, sádica, ri da minha cara.
03:30 min - Estou profundamente arrependido de ter topado esta pauta. Tento fugir pela primeira vez, mas sou impedido.
05:00 min - Durante os exercícios a professora pergunta se estou sentindo minha panturrilha. Respondo: “Sinto a panturrilha, a coxa, o pé, tronco e braços. Tudo dói.”
08:30 min - A contagem de segundos da professora é a mais lenta do mundo.
10:00 min - Pulando corda eu mando bem. Consegui três sem errar.
12:00 min - “Este é o mais difícil” avisa a professora. É a terceira vez que ela diz isso, e só piora.
15:00 min - Momento de alongamento passivo, onde a professora estica braço e perna até eu desistir da vida de tanta dor. É a primeira vez que reclamo de uma mulher estar por cima de mim.

Kangoo Jump
Professores de ginástica parecem vendedores da Natura ,sempre com um produto novo pra oferecer. O acessório do momento é o Kangoo Jump, uma bota (parece um roller) que tem um sistema de molas embaixo. Pra facilitar, eu calço 44 e a bota era 42.
00:00 min - Minha unha encravada acaba de chegar no meu calcanhar
03:00 min - O Kangoo Jump faz a gente correr muito mais rápido que o normal. Sem prática, quase caio pela janela da academia.
08:00 min - Ao ritmo de um remix bagaceiro, hora de pular. Numa perna, duas pernas, corrida, e uma dança da tesourinha que me fez lembrar a Xuxa.
11:00 min - Descubro meu talento nato para dancinhas aeróbicas (tenho a video aula da Solange Frazão, que comprei com outros fins)
14:50 min - Coração batendo forte, veias da cabeça saltadas. AVC à vista.
18:00 min - Morri.