
A terceira música de Bob Dylan no seu terceiro show em Porto Alegre, realizado em 2012, Things Have Changed, foi, de qualquer maneira, excepcional.
Já primeiro álbum de Bob Dylan, lançado em 1962, "Bob Dylan", foi, de muitas maneiras, comum.
Na época ele era apenas mais um jovem intérprete da música da moda underground, o tal folk renascido nas ruas do Estados Unidos, uma resposta ao rock comercial e vazio que era reproduzido infinitamente nas rádios. Esse novo folk americano dos anos '60 era a história do povo trabalhador ecoada na voz e no violão da juventude insatisfeita, um tributo ao passado na espera de um futuro melhor.
Dylan era apenas mais um jovem que sabia tocar violão e arranhava na harmônica em Nova York, mas teve a sorte de conhecer Joan Baez que, dois anos antes, havia lançado um álbum chamado "Joan Baez" - álbum que, por sinal, tinha muito em comum com o de Dylan: ambos contavam 13 faixas, a maioria no caso de Bobby e todas no caso de Joan apenas adaptadas, não compostas, retiradas da tradição e da memória da imortal música folk. Exemplo bom disso é House of the Rising Sun, presente em ambos os álbuns e de origem incerta: gravada pela primeira vez em 1934, alguns dizem que ela veio do século XVIII, outros do século XVI.
Baez já contava com dois Discos de Ouro e o título de Rainha do Folk em 1962, e se impressionou com o jovem Dylan por uma das duas músicas de sua autoria no álbum: Song to Woody. A música era uma carta aberta de admiração e carinho do pequeno Bobby ao seu maior ídolo, Woody Guthrie, um dos um dos grandes do folk e dos melhores entre os inúmeros intérpretes de House of the Rising Sun.
A música, a mais memorável e original do álbum, era apenas uma prévia do que estava por vir: Baez logo conheceu With God on Our Side, música que os dois interpretaram no tradicional Newport Folk Festival em 1963. Naquele ponto Baez havia escrito poucas músicas de protesto, e Dylan já havia composto ou estava para compor os maiores hinos de protesto da história. A Rainha do Folk ali aprendeu a compor músicas tópicas com o melhor, e o jovem Dylan teve um pedestal para que o grande público o conhecesse.
Daí surgiu uma relação sobre a qual muito já foi escrito e dito e filmado e cantado, mas o que mais importa aqui, sobre a terceira música de Dylan no seu show em Porto Alegre em 2012, é a posição de Baez e Dylan em relação ao tal protesto.
Baez rivaliza com Lennon e Ono em ativismo pela música, tendo participado com todas suas forças dos principais tópicos políticos e humanos dos últimos cinquenta anos, sempre tentando se manter afastada de siglas e partidos - apesar de ter se rendido ao carisma de Obama na sua campanha.
Já o ativismo de Dylan é mais documentado e menos real. Afinal, ele escreveu Blowin' in the Wind. E Masters of War. E A Hard Rain's A-Gonna Fall. E Oxford Town. E The Times They Are A-Changin'. E Only A Pawn In Their Game. E When The Ship Comes In. E The Lonesome Death of Hattie Carroll. E tudo isso em questão de 4 anos.
Mas, nas palavras de uma Julianne Moore que interpretava Joan Baez no excelente filme I'm Not There, Bobby não protestava além de sua música. A cantora sempre era perguntada se Bobby iria ao protesto, ao que ela respondia: "não, querido, ele não vem. Na verdade, ele nunca veio".
Em 1965, porém, veio a eletricidade de Dylan e o seu calmo folk deu, para eterno amargor dos fãs do começo de carreira, lugar ao frenético rock. O agora Rei do Folk abandonara seu posto - logo ele, que tanto protestara nas suas músicas, que tanto lutara contra o sistema em suas letras! - e agora disfrutava da música do vilão, aquele rock comercial e vazio que seria reproduzido infinitamente nas rádios.
É possível pensar sobre toda essa situação que, de algum jeito, Bob Dylan nunca se importou. Ele é apenas um manipulador egoísta que só quer saber de sucesso e atenção. Ou também é possível defender que ele estava apenas levando ao máximo a máxima de enfrentar o sistema ao fugir do próprio sistema folk, seguindo o rumo que sua criatividade apontava. E lá se vão horas e horas de discussão.
Tal discussão, pode-se dizer, ficou sem posicionamento do cantor até 2000, quando Bob escreveu Things Have Changed para o filme Wonder Boys. A letra responde incisivamente à questão: "As pessoas são loucas e os tempos são estranhos, eu estou trancafiado e inalcançável. Eu costumava me importar, mas as coisas mudaram".
Pode-se deduzir que Dylan está explicando que deixou o tal protesto do qual ele nunca participou ativamente para trás, e por isso agora suas composições são mais intimistas, dedilhando tópicos sobre paixão e solidão, amor e decepção. Talvez a tal desconexão do artista com o mundo atual seja verdadeira, e o gigante da música decidiu tratar do que ainda quer e pode cuidar, afastando-se de uma política e de um mundo que provaram ser, repetidas vezes, compostos de questões essencialmente e inevitavelmente insolúveis.
Porém, de uma forma ou de outra, com todo respeito aos corações partidos dos ouvintes de Dylan antes de '65, é muita pretensão querer ditar com o que uma outra alma livre deve e precisa se importar, seja por associação ou pela história ou por alguma sensação de dívida.
Por mais que um cantor doando milhões pra África e um ator lutando contra a AIDS pelos quatro cantos do globo sejam provas irrefutáveis de grande caráter e excepcional altruísmo para qualquer homem, a única e indispensável missão de qualquer artista-enquanto-artista é, em última análise, se importar com seu público e com sua música.
E poucas coisas dizem "eu me importo" tão bem e tão alto quanto um dos maiores poetas da história, um catalisador das maiores metamorfoses modernas na forma de se compor e de se ouvir música, à beira dos 72 anos, seguir em uma turnê supostamente eterna desde 1988, eventualmente vindo parar aqui em Porto Alegre pela terceira vez, realizando um show incansável de quase duas horas, com arranjos inéditos e fortes, que parecem declarar na contramão da letra de uma das músicas: as coisas mudaram e o mundo está louco, mas Bob Dylan segue se importando com seu público e com sua música.