Prevenção de acidentes de trânsito estão na ordem do dia das redes sociais. Pelas mãos de Diza Gonzaga
Por Roseli Andrion - Texto retirado do blog QYPE
Pequenina e serelepe. Falante, brava e exigente. Simpática e engraçada. Apesar da missão dolorosa que se propôs a cumprir, a gaúcha Diza Gonzaga segue seu caminho com determinação. E fala da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga sempre com a mesma paixão e um brilho no olhar. Detalhe: fala olhando nos olhos da gente, para convencer mesmo.
Fotos: Arquivo Vida Urgente

A Fundação, como é conhecida a ong da qual é presidente, nasceu num momento bastante difícil: quando Diza perdeu o filho, então com 18 anos, em um acidente de trânsito. Faz já 16 anos, mas ela não se esquece. “A cada aniversário do Thiago, me lembro dele. A gente não se esquece de um filho nunca”, me contou uma vez.
Esta semana foi intensa para Diza. Apesar de estar em Londres, na Inglaterra, visitando a filha e a neta (de apenas 3 meses), ela não parou de trabalhar. “Tenho dado entrevistas diariamente”, diz. Não à toa: nesta semana – de 13 a 20 de maio – comemoram-se os aniversários de 15 anos da ong e do programa Vida Urgente (de prevenção de acidentes de trânsito).
Dois dias antes do aniversário da Fundação, outra data importante no calendário de Diza (e de todos nós): foi lançada em 11 de maio a Década de Prevenção aos Acidentes de Trânsito. Diza é uma das responsáveis diretas pela iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU): ela representou o Brasil na reunião que aprovou a ideia, em 2009, em Moscou, na Rússia.
E ainda teve o Dia das Mães, que Diza comemorou em Londres mesmo em 8 de maio. E duplamente, apesar de estar longe de casa e dos outros quatro filhos e dois netos (e, claro, do marido).
Plugada nas redes sociais
Há 15 anos, quando a ong foi fundada, Diza contava com telefone, correio e boca-a-boca para disseminar a importante mensagem da causa que defende. “Eu recebia muita carta”, lembra. Hoje, é nas redes sociais que ela reina – soberana – para atender ao público fiel: chegam de 400 a 500 e-mails diários ao endereço central da Fundação. Todos são devidamente encaminhados e respondidos.

Diza dedica cerca de duas horas todos os dias apenas para responder aos e-mails que chegam para ela, diretamente ou vindos do e-mail central. “Pra mim, a comunicação é fundamental. Eu preciso das ferramentas de mídia para propagar a minha mensagem”, explica. O site da ong tem links para os diversos canais de comunicação usados pela equipe: Twitter, Facebook, blog, Google Earth, YouTube, Flickr e Orkut. Os mapas do Google Earth, por exemplo, são usados para marcar locais em que houve mortes por acidente de trânsito.
No Twitter pessoal, ela recebe, em média, 20 novos contatos diariamente. “Eu quero mesmo que me persigam”, brinca. A conta tem cerca de um ano e beira os 2 mil seguidores. Foi criada quando Diza percebeu que ter apenas e-mail não era mais suficiente. “Eu dava palestras e me perguntavam qual era meu Twitter, meu Facebook… Comecei a notar que, para atingir os jovens, eu teria de ir até onde eles estavam. E fui.”
Da mesma forma que anima os voluntários da Fundação quando participa de ações na rua, ela mobilizou as massas no Twitter e no Facebook no dia 11 pedindo que seus seguidores trocassem a foto pessoal pela imagem representativa da Década de Prevenção aos Acidentes de Trânsito. Arrisco dizer que o Rio Grande do Sul em peso atendeu ao seu pedido – e alguns perfis ainda permanecem assim.

Diza tem sempre o netbook embaixo do braço, aonde quer que vá. “Isto aqui é uma maravilha”, afirma. “Posso fazer tudo que preciso de qualquer lugar do mundo.” Quem a ouve falando nem imagina que há apenas cinco anos Diza trabalhava completamente offline. “Os e-mails que chegavam eram impressos para que eu respondesse à mão. Depois, um assessor digitava e enviava.”
Ela conta que a internet e as redes sociais foram fundamentais para o trabalho da ong. “Sem isso, não conseguiríamos atingir nosso principal público, os jovens (normalmente de 14 a 26 anos, ‘uma geração totalmente plugada’). Hoje é muito mais fácil de eles me encontrarem”, avalia. A equipe da Fundação não influencia em suas contas pessoais nas mídias de relacionamento: seu Twitter e seu Facebook são administrados por ela mesma, que sempre retuíta e compartilha informações importantes relacionadas à causa.
Diza e a Fundação já ganharam diversos prêmios. “Mais de 40”, contabiliza ela. O mais recente foi o Prêmio Volvo de Segurança no Trânsito (que eles faturaram todas as vezes em que se inscreveram: cinco, no total), que a levou até a Suécia no mês passado. Esse reconhecimento tem uma explicação? “Meu trabalho não é reivindicatório, como o de outras ongs. A Fundação oferece uma solução para o problema: o programa Vida Urgente.”

E qual o maior sonho da Diza? “Fechar a Fundação”, diz. “Ainda estamos longe disso, mas continuamos a caminhada. No Rio Grande do Sul, há 15 anos, morriam 7 jovens em acidentes de trânsito por fim de semana. Esse número caiu para 2.” A estatística não é boa, mas já é melhor do que era. “O Rio Grande do Sul é o único estado brasileiro em que isso aconteceu”, lembra. Parte da estratégia inclui mudanças estruturais: Diza e a Fundação têm um dedo na ‘Lei Seca’ e na lei que proíbe o consumo de bebida alcoólica em postos de gasolina e lojas de conveniência de Porto Alegre (RS).
“Não jogo pra torcida, tuíto minha causa”
A ong hoje tem uma equipe jovem e engajada. E há novas adesões de voluntários diariamente. De acordo com Diza, esses voluntários costumam participar das ações daFundação desde a adolescência até 23 ou 24 anos. “Quando terminam a faculdade, é comum que nos procurem para oferecer gratuitamente seu trabalho como profissionais.” A instituição, claro, aceita: muito do material de divulgação (filmes, folders, anúncios) e parte do programa de apoio a vítimas e parentes é feito por essa turma.

Quem espera saber mais da vida pessoal de Diza pelas redes sociais, vai conseguir pouca coisa. Ela raramente fala de si no Twitter ou no Facebook – exceção que confirma a regra são os poucos comentários recentes em que cita a netinha Isabella ou os demais filhos e netos. Nas ocasiões em que isso ocorre, o pano de fundo, a causa da Fundação, é sempre mais importante.
E ela tem uma justificativa para isso: “Não jogo pra torcida, tuíto minha causa”, diz. “A Diza não é interessante. A presidente da Fundação é.” Ah, se ela soubesse como está enganada…