
“Alguém convidou a Regina?”
* fatos e atos das mulheres da minha família
Sabadão meio dia com direito a reunião familiar (no estilo vó, tia, cachorro, papagaio. Sem exageros, mas com eufemismos), almoço feito pela Dona Lurdes (santa Lurdes que atura uma família com mulheres sem dotes culinários. Isso me inclui), salão de festas da casa da vó enfeitado com balões e cartazes dizendo “Feliz Aniversári”, já que a letra “O” foi arrancada do cartaz oficial da minha família. O culpado? Minha tia que com dois anos quis brincar de cozinheira. O uso da letra “O” de papelão na brincadeira ninguém nunca entendeu. As vítimas? Toda minha família que tem que escutar todo ano minha vó dizendo que a letra “O” está subentendida.
Explicações à parte, o fato que a comemoração foi feita para celebrar o aniversário de 99 anos da minha tataravó (sim eu ainda tenho, sim ela é linda, sim ela é muito lúcida), da minha Tia Lê e da Minha Tia Rê. Almoço vai, almoço vem. Crianças vão, crianças vem. Comentários maldosos da minha vó foram e vieram também (incluindo observações sobre como eu engordei, sobre como o cabelo da minha mãe estava seco e sobre como a roupa da Tia Lê parecia um tapete de banheiro). Duas horas se passaram e nada da Tia Rê chegar. Como ela sempre foi a chique da família, aquela que conhece as melhores pessoas e restaurantes, e que está sempre impecavelmente bem vestida e linda, conclusões maldosas já começaram a surgir da minha família, que diga-se de passagem não precisa de muito para começar a falar mal de alguém. Falaram que ela devia ter ido na inauguração de um novo restaurante badalado, ou que ela estava muito ocupada comprando roupas na Padre Chagas, ou que de repente, sei lá, ela foi comemorar o aniversário com a Rainha da Inglaterra.
Lá pelas tantas, minha vó se levanta e com uma colher bate levemente em uma taça de vidro (cristal não entra na minha família que é composta de muitas mulheres desastradas) a fim de chamar atenção de todos da família:
- Atenção! Atenção! Atenção, por favor!
Todos ficaram em silêncio e por um momento gelaram. Qualquer movimento em falso seria motivo para mais um pitaco da minha vó Miriam, mais conhecida como alemã nazista. Minha vó prosseguiu:
- Alguém convidou a Regina? Atenção: alguém convidou a Regina?
Tensão no ar, tensão no ar. Alguém convidou ela? A culpa vai sobrar para alguém, e não vai ser bonito. Minha mãe se pronunciou:
- Não, mãe. Tu que ficou encarregada de convidar as pessoas para a festa.
No mesmo momento a porta do salão abriu e minha Tia Rê entrou, sempre linda e de preto (segundo ela o preto a deixa sexy e irrita a minha vó) com lágrimas nos olhos e com frase pronta:
- Put@ que P@&iu , mãe! Estão fazendo festa só pra Chica (minha tataravó) e pra Lê? É meu aniversário também!
- Isso aqui não é festa, isso aqui é um almoço! – respondeu minha vó com sua delicadeza de elefante. Na mesma hora minha vó se virou com uma cadeira que ela estava segurando, sabe-se lá o motivo, e acertou nas pernas da minha mãe Ana, que imediatamente olhou pra ela assustada. Minha vó ficou vermelha:
- Ô Ana, te encosta num canto aí e sai do meio do salão. Parece uma barata tonta.
No fim tudo acabou em choro, como boas mulheres na TPM.
Obs: muitas mulheres juntas começam a competir, involuntariamente é claro, para ver quem vai ovular primeiro. Então, família de maioridade feminina é TPM conjunta. Deve ser por isso que os homens da minha família são tão quietos...
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