"Quando ouço música, a minha imaginação compraz-se muitas vezes com o pensamento de que a vida de todos os homens e a minha própria vida não são mais do que sonhos de um espírito eterno, bons e maus sonhos, de que cada morte é o despertar."
- Schopenhauer
Olá, crianças.
Vocês sabem, existe algumas coisas que eu não tolero nas pessoas. Gente que faz música que eu não goste, por exemplo, tudo bem. As pessoas têm o direito de fazer a música que quiserem e ouvir a música que quiserem (menos quando estão nos ônibus, mas enfim).
Sabe o que eu realmente, REALMENTE não tolero? Hipocrisia.
E tem um certo cara, cantor e compositor gaúcho bem conhecido, que, além de já não ter a minha simpatia do ponto de vista musical, conseguiu ser hipócrita não uma, mas algumas vezes em uma situação que ocorreu nos últimos dias.
Vamos aos fatos.
Estava eu, na minha inocência, vendo televisão quando me deparo com a propaganda do novo disco de um cantor dessa nova onda de sertanejo universitário. Claramente, esse é um estilo de música que não me atrai, mas isso não é motivo para que eu ofenda todos os músicos e compositores que fazem disso o seu trabalho.
Neste comercial, porém, foi mostrado o trecho de uma música que eu já conhecia das frequências radiofônicas das rádios gaúchas. Esse cantor, da propaganda fez uma versão para uma das piores canções já feitas no rock sulista nos últimos anos. Canção composta pelo irritadiço "cara" citado no início do post.
Corri pro meu twitter e comentei, de forma sincera e talvez um pouco preconceituosa (mas sincera, acima de tudo) que, pra um cara que sempre mantém a imagem de "roqueiro", de músico de "atitude", ser regravado por um intérprete de música popularesca como o da propaganda que eu havia visto era um tanto quanto baixar o nível.
(Eu sei, eu disse mais acima que não há porque eu ofender esses músicos do sertanejo universitário, ou do funk, ou do emocore, etc. Não considero meu último comentário uma ofensa. O problema, ao menos pra mim, é que esses caras, com suas composições pobres, tolas e quase mecânicas, ou em outras palavras, "fabricadas", distanciam o conceito de música como ARTE e o aproximam de puro e simples entretenimento. Você pode pensar em qual o problema nisso, mas no final do post eu explico com alguns exemplos indiscutíveis.)
Até aí, tudo tranquilo. Uma crítica, até bem humorada. Nada muito diferente da acidez com que eu escrevo de vez em quando aqui.
Acontece que hoje, ao me deparar com o profile do sujeito que eu critiquei no twitter, apareceu uma sequência de updates em tom de desabafo, uma réplica velada ao meu comentário.
Ele disse, em seu perfil no twitter, (usando de um PÉSSIMO sarcasmo btw), que vai ler um pouco, para poder fazer parte do círculo cabecista (sic) dos músicos extremamente inteligentes do Estado. Que compôs uma obra-prima, uma música muito inteligente, pensada, matemática, e que tocou pras baratas do seu quarto (!!!), que o olharam de forma blasé. Concluiu seu raciocínio dizendo que, pasmem, vai continuar compondo músicas SIMPLES, pois estas agradam as PESSOAS, e não as baratas. Que, não sendo "cabeçudo", tem mais público e é reconhecido.
Veja bem ELE disse isso.
(E veja bem novamente, não sou uma estrela. Tenho poucos seguidores no twitter. E também sou músico, mas minha renda não vem da música. Sou um zé ninguém, um blogueirinho metido a escritor e músico que de vez em quando gosta de falar o que pensa. E ainda assim, irritei meu "colega", um rockstar gaúcho, uma figura adorada pelas meninas... Estranho, né?)
Amigo, deixa eu te explicar uma coisa: a música não precisa ser simples, não precisa ser popular, nem qualquer outro adjetivo que você quiser usar pra mascarar a grande verdade de que você NÃO SABE compor, pras pessoas escutarem. A música só precisa existir.
O que você define como música SIMPLES, feita pras PESSOAS, eu defino como música FABRICADA, feita pra ganhar DINHEIRO. Música que é feita apenas pra agradar a um público específico, ou para apenas uma finalidade específica ("bota a mão na cabeça que vai começar..."), perde o que, acima de tudo, deve ser música: arte. A palavra música, aliás, vem do grego, e significa "a arte das musas".
Música era pra ser algo especial, algo tocante, algo eterno. Você não vê grandes pintores ou escultores fazendo obras única e simplesmente pra ganhar dinheiro. A arte foi feita para ser reconhecida, interpretada, sentida, pensada, discutida, apreciada. Não sintetize uma forma de expressão artística com mais de 40.000 anos de vida com a afirmação de que "música que não é simples só agrada as baratas".
A música pop já provou que consegue tranquilamente aliar pura arte e puro entretenimento. Ouça "Thriller", do Michael Jackson. Ouça "Dark Side Of The Moon", do Pink Floyd. Ouça "Panis Et Circensis". Ouça pelo menos os últimos cinco álbuns dos Beatles, ora veja!
Dizer que música inteligente é "fria", como você fez, é um desrespeito a caras como Jimmy Page, Paul McCartney, Thom Yorke, Tom Zé, Chico Buarque, Nei Lisboa. E esses caras não tocam pra baratas, meu caro.
E mais: não me venha com papinho de "batalhei muito pra estar aqui" porque eu sei, você sabe, e um monte de gente também sabe que é cada vez mais raro quem chega no topo das paradas sem alguma "ajuda" (não preciso explicar que ajuda é essa, né?). E que você não é uma das exceções.
Mas enfim. Eu disse no meu primeiro post que música se discute sim. Que opinião só existe com argumentos e só pode ser rebatida com contra-argumentos. Queria falar mais sobre esse assunto, mas daí precisaria citar o nome da criatura protagonista deste post, e não farei isso nesse blog. Também quero evitar textos muito longos.
E claro, fique à vontade para comentar, para criticar, e não deixe de vir aqui depois para ouvir a resposta. Estamos aqui para isso.
Obrigado a todos que aguentaram esse texto até o fim.
"A música é o esforço que fazemos para explicar a nós mesmos como os nosso cérebro funciona. Escutamos Bach extasiados porque isso é ouvir uma mente humana."
- Lewis Thomas
(Ah, e quem quiser acessar meu perfil no twitter, logicamente, vai saber de quem eu estou falando.)





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